quarta-feira, 22 de outubro de 2014

Rubem Alves - Futebol e Política




Alguns amigos se juntaram e resolveram fazer algo pela pequena cidade do interior em que moravam. Pensaram que seria possível colocar um pouco de razão nessa coisa tão movida a paixões que é a política. Nada partidário. Não levantaram bandeiras. Não defenderam candidatos. Não gritaram slogans. Propuseram aos dois candidatos a prefeito que respondessem a uma série de perguntas sobre os seus planos, as mesmas perguntas para os dois. As perguntas foram feitas por escrito e eles tiveram dez dias para escrever suas respostas. As perguntas e as respostas, com a concordância de ambos, foram transformadas num tablóide e distribuídas pela população.
Num dia previamente marcado, os dois candidatos deveriam ler as suas respostas e assiná-las, como um documento público. Assim aconteceu. Os dois candidatos compareceram ao local designado junto com seus partidários, que se assentaram em dois blocos de cadeiras separadas. Mas o que sucedeu nada teve de racional.
Era mais como o confronto entre torcidas de dois times de futebol, cada torcida odiando a outra. Vaias, gritos apupos, xingamentos. Ninguém estava interessado em ouvir e compreender o outro. O clima foi ficando tenso e havia a possibilidade de que, terminado o evento, houvesse um confronto físico entre os dois grupos, tal como frequentemente acontece com torcidas de futebol. Ao final, a palavra foi aberta aos presentes. Uma amiga, uma mansa mulher, se levantou trêmula e disse algo mais ou menos assim: "Eu e meu marido nos mudamos para cá por opção. Cansados da brutalidade de São Paulo, escolhemos esta cidade porque ela nos pareceu habitadas por pessoas cordiais e pacíficas. Mas agora estou triste. Perdemos nossas ilusões..." Disseram alguns participantes que foi essa fala mansa que envergonhou as torcidas já preparadas para a briga. Que pena que aconteça assim!
              Usando a metáfora do futebol: as eleições não são um confronto entre dois times que se odeiam. Não há dois times. O time é um só. Todos jogamos nele. Nosso time é a cidade. O que acontecer na cidade acontecerá a todos nós. O que acontece nas eleições é a escolha do técnico do time no qual todos nós jogamos. Dizem as Sagradas Escrituras que uma cidade dividida contra si mesma não pode sobreviver. Será esse o nosso destino, viver batalhas de ódio que só produzem divisões? As pessoas, por terem ideias diferentes, têm de se tornar inimigas? Alguns acham que sim. Elas se tornam inimigas daqueles que têm ideias diferentes das suas. Eu mesmo ganhei muitos inimigos... Isso acontece porque há aqueles que se julgam possuidores da verdade. Mas ninguém é dono da verdade. Por isso existe a democracia: porque ninguém tem a verdade. Só temos opiniões precárias. Quem se julga dono da verdade tem de ser intolerante.

(Retirado do Livro "Ostra feliz não faz pérolas".)

domingo, 6 de abril de 2014

Espaços


Sutilmente estou vazada
De onde vem a minha leveza
Preciso de me preencher
Aromas para me encher
Com todas as flores e cores

Sinto-me vazada na alma
Com orifícios expostos
Todos os buracos, adentro
Exponho-os distintos

Preciso me fixar
Para não me asfixiar
E me sufocar,
Preciso me focar

Preencha-me em todos os lados
Surpreenda-me com suspiros
Levemente profundos
E, assim, preenchida me retiro

domingo, 9 de fevereiro de 2014

TU ÉS


Roubaste a minha alma e meu corpo.
Diante da transitoriedade do teu olhar,
Escravizaste-me no que mais sutil eu possuía:
Não me possuo mais.

Vivo do teu reflexo,
Vivo das tuas migalhas jogadas ao chão
As chagas se abrem e se fecham
Como a dança das lavas do vulcão
Ativo e em erupção.

Devoro-te
Possessa
Com ardor e dor
Sangro e assopro
Devoro-te

Tiraste de mim
O que me aprecia:
A minha paz.
E com a pá,
Enterraste-me aos teus pés
Cavaste dentro de mim.

Quem és tu?
Que me alimentas e me fazes devorar
Jogada na lama
Da incerteza do indefinido
Plano infinito
Possuíste-me

Devoro-te arrebatadoramente
Devolva-me o que me é de nascimento
Minha alma que subjugas
No calor dos teus pés
Esfrangalhas-me com um suspiro
Arrematas-me e me matas.

Quem és tu?
Que me matas um dia
Que me libertas em outro
Que me aprisionas ali
Que me fazes renascer aqui
Quem és tu?

quinta-feira, 12 de dezembro de 2013

Sem palavras

Nas reticências
Vieram os sinais
Que me silenciam.
Diante da ausência
Que me norteiam.

Urge mais que distante,
Fez-se apenas como amante
Sem qualquer diamante
E ainda mentes,
Brilhantemente.

As estrelas do céu,
Nada mais que cruel,
Sem o seu doce mel,
Não há melodia
Durante o dia 
Ou a noite.

Pousa sobre a lua
Meio que desnuda
No silêncio,
Tudo muda
E se mortifica.



sexta-feira, 6 de dezembro de 2013

Música

Meias-palavras,
nada mais,
poucas melodias
durante os dias...

O ruído que corrói
desprende e
perece.

Meias-verdades
não há idades
que desaparecem
com o tempo.
Amém.

segunda-feira, 2 de dezembro de 2013

Filosofia

Parto de uma total insignificante ignorância,
O que faço com gosto: questionar.
Melancolicamente com ares fatídicos
Sobre o "só sei que nada sei".
Nada mais estranho e denso,
É esse tal de conhecimento,
Que serve à mente como cimento
Por dar base aos argumentos,
Por vezes, etnocêntricos,
Faz-nos pensar em Teeteto,
Diante dos condicionamentos
Transformados em crenças,
Verdadeiras ou falsas,
Que viram descrenças
Diante da oferenda do tempo..
Fazem-nos crianças.

Ai, que pena!
Dai-me penas para escrever!


quarta-feira, 27 de novembro de 2013

Beleza Negra

Ah! Beleza negra,
Dentro de ti, aprimoro
E contigo namoro
Sem preconceitos.
Despido de ritos cristãos
Prepondero cada perdão
De cada pecado cometido
Mesmo sem ter tido
Pois quero apenas senti-lo
A vida incorpora sentido
Hei de segui-lo, 
Sem regra.